Tricolor da cabeça aos pés

Atender ao telefone com um simples "alô" não faz parte da rotina do mecânico Desirée Rogério. O mais usual para ele é começar uma conversa dizendo "saudações tricolores", em referência ao Fluminense. Ele não se importa com quem liga, mas é sempre atencioso. A paixão de Desirée vai além do telefone. A casa é pintada nas cores verde, grená e branca. A oficina idem. As unhas e os dentes também. No dia-a-dia, sempre usa roupas (licenciadas) do Flu.

- Se alguém me ver com uma roupa que não seja do Fluzão, pode me pedir R$ 1 que eu dou um jeito de conseguir na hora - desafiou.

Desirée tem 63 anos e o amor começou na infância. O primeiro jogo no estádio foi em 1959 na vitória do time das Laranjeiras por 5 a 2 sobre o Botafogo.

- Eu já torcia muito pelo Fluminense, mas depois desse jogo a paixão triplicou - explicou, dizendo que coleciona mais de 2 mil ingressos de jogos. Na coleção, segundo Desirée, estão todos os ingressos do Brasilerão do ano passado. As viagens, na maioria das vezes, são custeadas por "vaquinhas" feitas no clube.

- Os torcedores ajudam porque é uma causa nobre e eu presto contas de tudo.

Quando as partidas são no Rio, a presença no estádio é, relativamente, mais fácil. Problema mesmo, o torcedor-símbolo só teve no último jogo do Brasileirão de 2010, quando o tricolor confirmou o tricampeonato em cima do Guarani. Os ingressos estavam esgotados nas bilheterias e os cambistas pediam R$ 1,3 mil pelo bilhete.

- Fiz um cartaz simples, de papelão, dizendo que trocaria meu Chevete por ingressos, e trocaria mesmo. O cartaz chamou atenção, o LANCE!Net fez reportagem e ganhei seis ingressos - lembrou.

Desirée foi ao estádio, viu a vitória tricolor por 1 a 0 e comemorou um Campeonato Brasileiro após 26 anos. Conseguiu levar os filhos e ainda deu uma entrada para uma desconhecida.

- Chegando ao estádio vi uma torcedora toda caracterizada com as cores do Flu chorando com muita tristeza. Ela disse que o namorado havia prometido um ingresso, mas não conseguiu. Como não tinha dinheiro para comprar o bilhete com os cambistas, iria ficar sem ver a partida. Eu me sensibilizei e dei um ingresso a ela, que quis me pagar, mas não aceitei. Eu tinha ganhado esse ingresso - relatou.

O Chevete que venderia é o mesmo carro que ainda usa atualmente. Comprou para substituir uma Belina 78 que era toda pintada nas três cores do Fluminense. A troca foi feita após um grande susto com a família.

- Eu saia de um jogo contra o Vasco quando uns caras de uma torcida organizada começaram a balançar o carro comigo e meus filhos dentro, querendo virá-lo. Foi um momento de selvageria que só foi interrompido por um policial, vascaíno, que passava pelo lugar. Ele desceu do carro dele e deu um tiro para o alto, fazendo com que os covardes fugissem. Depois disso me desfiz da Belina - explicou.

SEM CASÓRIO

Pelo futebol, Desirée já fugiu do hospital dois dias após operar a perna, mas a maior loucura que ele admite ter feito foi perder o horário do casamento. Em julho de 1969 ele tinha marcado o casório para um sábado, na véspera de um Fla-Flu, que não valia nada, pelo Campeonato Carioca. O plano era se casar, descansar e ir ao jogo no domingo. O problema é que um show de música (ele não lembra de quem e diz que não importa) foi transferido do Maracanãzinho para o Maracanã.

- O que fizeram? Anteciparam o jogo para o sábado. Fiz minha contas: o jogo é às 17h e o casamento às 19h. Vou ao jogo, vestido de terno, pego um trem e chego em tempo de me casar. Que nada. O trem parou, caminhei uns dois quilômetros até conseguir um ônibus e cheguei à igreja às 20h30, quando não dava para mais para casar - explicou.

Os cunhados de Desirée ficaram tão bravos que ele precisou se esconder na casa de um irmão por três dias. Foram três meses de conversa até convencer a, ainda, esposa a casar-se. Só no civil.

- Marquei o casamento numa quarta-feira, mas como tinha jogo do Fluminense no dia, consegui antecipar o casamento para a terça - completou.

PRESIDÊNCIA

A força nas arquibancadas Desirée disse que está garantida enquanto viver. No entanto, ele espera contribuir mais com o Clube das Laranjeiras assumindo a presidência.

- Porque não posso me tornar candidato? É uma paixão e um desejo. Se um torneiro virou presidente do Brasil, porque um mecânico não pode presidir o Fluminense? - finalizou.

Fonte: Lance!
Foto: Divulgação/Facebook