Fama, idolatria, ebulição e presidência: Mário Bittencourt vai à tribuna no Flu

Com o ouvido colado no rádio e os olhos grudados na televisão, Mário Bittencourt conheceu o Fluminense. Na saudosa geral e nas antigas arquibancadas do Maracanã, estreitou os laços com o Tricolor. Dezesseis anos depois de entrar nas Laranjeiras como estagiário do departamento jurídico, é homem forte do futebol. Hoje, senta na cadeira da vice-presidência do departamento e é apontado por muitos como futuro presidente do clube.
-  Diria a você que tenho um sonho. Além disso, me sinto preparado para isso – disse, em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com.
O assunto presidência, no entanto, o advogado prefere deixar para depois. O momento é de tentar fazer com que o Fluminense consiga a vaga na Libertadores 2015, que fica mais difícil a cada rodada do Brasileirão. É a terceira vez que ele trabalha no futebol do clube. Em 2009, gerente de futebol. Em 2011, assessor da presidência. E sempre com o clube em ebulição.
- Eu tenho uma capacidade muito boa de passar por momentos difíceis do meu jeito. Estou 80% dos meus dias em 220. Consigo aguentar bem esses momentos.
Mas foi no fim de 2013, exercendo sua profissão, que Mário alcançou novo status. Ao livrar o Fluminense do rebaixamento no caso que envolveu escalações irregulares de jogadores por parte de Portuguesa e Flamengo, passou a ter tratamento de ídolo dos tricolores. Virou meme na internet até entre os torcedores rivais.
- Na minha opinião, ídolo é o jogador. Eu não me considero. Confesso que nos primeiros jogos fiquei assustado, impressionado. No primeiro deles, não consegui subir porque todos perguntavam do julgamento, querendo tirar foto.
Bittencourt está bem na foto com os tricolores, mas sem esquecer que os próximos passos podem queimar o filme.
- Se as coisas estão dando errado, você não fez uma boa contratação, as coisas não estão indo bem. Se estão indo bem, ninguém lembra. Sei como é dentro da fornalha.
Confira a entrevista:

A relação com o Fluminense vem de berço? Daria para não ser Fluminense?
Nasceu na infância, meu pai é tricolor e, apesar de ter se separado da minha mãe ainda muito cedo, eu tinha quatro anos, mas foi o que manteve meu elo com meu pai. E acho que o que me fez seguir foi o time da década de 80, né? Porque foi nesse período, logo depois da separação dos meus pais, que fui morar com minha mãe na casa do meu avô, não tive condições de ficar onde morava. Meu tio, meu avô, as pessoas da família da minha mãe, torciam para o Flamengo. E você imagina: uma criança, torcedora do Fluminense, acabei indo morar numa casa grande, em Vila Isabel, tínhamos 90% das pessoas torcendo pelo Flamengo. Mas eu tinha um primo que era tricolor, que frequentava a casa no fim de semana, e me levava ao Maracanã. Manteve a chama acesa, e os títulos de 83, 84, 85 ajudaram muito. Eu dizia para as pessoas: “meu time ganha do de vocês”. Meu avô era um democrata e permitiu que naqueles títulos eu andasse pela casa carregando a bandeira, brincando com as pessoas. Não tive aquela coisa que muitas crianças vivem, que é trocar de clube. Sempre fui Fluminense, desde o berço.

E quais são as fases mais marcantes como torcedor?
Aí são alguns períodos. Esse da década de 80, que fortaleceu, e depois um período muito ruim da história do clube, que curiosamente também faz com que você se apaixone ainda mais. Eu vim de uma fase vencedora. Depois de 85, foram 10 anos sem ganhar um título. E quando ganha o título de 95 (Carioca), eu ainda muito jovem, isso me fez ser cada dia mais tricolor. E conclui com a minha vinda para o clube, num período triste da história do Fluminense. Cheguei aqui em 98, como estagiário do departamento jurídico, a condição para que eu pudesse ser entrevistado e até aprovado era que eu fosse sócio do clube. Quem me entrevistou na época foi o atual presidente do clube, que era o vice-presidente jurídico, o Peter (Siemsen). O Fluminense não pagava salário há dez meses, estava na série B e caminhava para a Terceira Divisão. Quando cheguei, faltavam uns três ou quatro jogos para acabar a Série B. Vi um lado do Fluminense que confesso que não imaginei que fosse ver, situação caótica, 68 jogadores no elenco profissional, dez meses de salários atrasados, clube sem pagar nada, foi um baque. Eu já era sócio desde 93, entrei apenas para contribuir com o clube. E frequentava apenas nos dias de jogos. E não tinha essa visão interna do que acontecia, como o torcedor está sempre afastado dessas questões, o que acho até bom, ele nutre apenas paixão. Acabei conseguindo construir uma história no clube além de torcedor, mas também uma trajetória profissional.

Desde que entrou, ficou apenas cinco meses afastado profissionalmente. Foi o máximo que conseguiu ficar longe do Fluminense?
Eu não vou me afastar nunca. Pode ser que não queiram mais os meus serviços, mas é impossível. Além de tudo, tenho uma filha (Maria Isabel) que vai fazer quatro anos que é completamente fanática pelo Fluminense. Além de trabalhar com o clube, é um dia a dia muito ligado ao Fluminense, mesmo nas horas de lazer. Quando você é torcedor, vai ao jogo, volta para casa e consegue separar. Hoje em dia, com as funções que exerço, não consigo desligar. Até nas festas de amiguinhos da minha filha os pais tricolores me perguntam sobre algumas coisas. Mas dá tempo de jogar minha pelada, fazer meu exercício, estar com minha família, tomar minha cerveja. Os momentos aqui não desgastam, são prazerosos. Eu sempre quis ser advogado, desde criança, faço o que eu gosto, e consigo somar isso a minha paixão clubística. Ser advogado do Fluminense e ser tricolor me ajudou bastante. Se construí uma carreira, devo ao Fluminense. No período negro que te falei, que durou três anos, de 96 a 99, mas em termos financeiros e de estrutura perdurou por um bom período, atuei em todos os tipos de processos contra o Fluminense. Me tornei um advogado safo e que sabe se virar bem dentro dos ambientes da Justiça muito pelo que o Fluminense teve de problema e tive que aprender muito com isso.
O torcedor virou advogado do clube, depois diretor e agora vice-presidente de futebol. Como é acumular essa experiência?
Ela é gratificante, mas ao mesmo tempo com muitas agruras. Conheço o lado de lá, sei o que o torcedor sente, os anseios, o que acontece na cabeça depois de uma derrota. Só que aqui dentro tem que apertar um botão, a história aqui é completamente diferente. Não é primeira vez que eu trabalho com futebol, tenho experiência para falar. Tive em 2009, tive em 2011, sempre em períodos de ebulição, conturbadíssimos. Sempre cheguei nesses períodos. Sempre iniciei o meu trabalho para tentar recuperar alguma coisa que não vinha bem. E apesar de não parecer, a gente sofre muito. Está tão perto, com a sensação de que pode fazer alguma coisa, e a gente faz muita coisa, mas depende de uma série de fatores, do resultado do campo, depende do adversário. Quando você é torcedor, a vitória traz alegria. Quando trabalha no futebol, traz alívio. Porque o trabalho está seguindo e porque o torcedor está alegre. É o ônus que o cargo tem. Se as coisas estão dando errado, você não fez uma boa contratação, as coisas não estão indo bem. Se estão indo bem, ninguém lembra. É do jogo, é assim, tem que aguentar a pressão, ouvir o torcedor, ouço muito, escuto, leio opiniões, acompanho.

Seja como advogado ou dirigente, sempre na hora do incêndio você está. Por que você é chamado nos momentos mais complexos?
Em 2009, quando (Ricardo) Tenório assumiu a vice-presidência de futebol, cheguei como gerente. Foi muito pela relação que eu tinha com os atletas. Como os defendo no Tribunal há muitos anos, mesmo antes de 2009 vim adquirindo um respeito por ser um cara que num momento difícil deles sempre os defendi. Vim também por ter conhecimento jurídico, conhecer contratos, lei que rege a matéria, fez com que trouxesse segurança ainda maior. O vice-presidente que estava antes havia declarado que o Fluminense ia jogar a Série B. Meu trabalho como advogado e dirigente de futebol não conflita, converge. Consigo proteger nos momentos mais difíceis a instituição. Vim pela boa relação, o Tenório não tinha esse dia a dia com os jogadores. E acho que minha ligação também com a arquibancada é muito grande, me relaciono bem com todos, torcedor comum, torcedor organizado, movimentos populares. Em 2009, chegamos a pedir que as torcidas ficassem no mesmo lugar no Maracanã, fui atendido nesse pedido. Disse que se estivéssemos desunidos estaríamos mortos. Em razão desse histórico, de saber conviver, acabei sendo chamado outras vezes.
A segunda foi em 2011...
Estávamos em último do grupo na Libertadores, Muricy (Ramalho) havia saído, nos classificamos. O Abel em 2011 chegou a ser questionado, conseguiu o terceiro lugar e foi campeão (brasileiro) no ano seguinte. Todas as vezes que você segura o trabalho, vai ter uma boa performance. É isso, é no que acredito. Eu não sou um cara tranquilo, um cara calmo. Muito antes pelo contrário. Eu tenho uma capacidade muito boa de passar por momentos difíceis do meu jeito. Estou 80% dos meus dias em 220. Consigo aguentar bem esses momentos. Não que não goste do filé mignon, mas não me incomodo. Vou ser sempre campeão no Fluminense quando o Fluminense for campeão. Não passo para ser campeão. Passo para ajudar e defender o Fluminense. Vou dar a vida aqui. Se for campeão, ótimo. Se me chamar, independentemente do momento, vou aceitar. Em 2009, tinha recém completado 31 anos. O que ouvi de amigos e familiares você não imagina. Disseram que estava louco de aceitar um desafio de dar 99% errado. O dia que cair, quem vai estar sentado lá, vai ser você, eles diziam. Tô nem aí, aceitei na hora, aceitei porque precisava contribuir naquele momento.

E no fim do ano passado sua contribuição como advogado assegurou a permanência do clube na Primeira Divisão. Em viagens com o Fluminense e nos jogos no Maracanã, você é assediado, dá autógrafos, posa para fotos. Algo muito comum com ex-jogadores que viraram dirigentes. Pode-se dizer que sua atuação no STJD levou você ao posto de ídolo?  
Na minha opinião, ídolo é o jogador. Eu não me considero, sendo honesto. Seria franco, direto e reto, se eu me considerasse. Realmente o carinho da torcida comigo depois do episódio do julgamento do ano passado aumentou. O carinho sempre existiu, mas passei a ser assediado na rua, inclusive por torcedores de outros clubes. Com a torcida do Fluminense não tinha dúvidas. Ela sabia que estava sendo defendida pelo advogado do clube e por um torcedor. A minha grande identificação com o torcedor é: ele me vê ali de paletó e gravata, sustentando e defendendo, dando a vida pelo clube, mas no fim de semana ele sabe que vai me ver de bermuda e com a camisa do Fluminense torcendo. Acho que disse muita coisa que eles gostariam de dizer. O que mais me surpreendeu foi que além dos torcedores do Fluminense passei a ser assediado, cumprimentado, inclusive por torcedores de outros clubes. Fui xingado também, muitas vezes, até em situações constrangedoras. Indo sair para almoçar com minha família, no Maracanã, contra clubes do Rio, ouço muitas besteiras. Passou a ser uma situação que não estava acostumado. Nos primeiros jogos desse ano, porque assumi a vice-presidência de futebol dia 7 de maio, em janeiro, fevereiro, março e abril fui aos jogos de arquibancada. Confesso que nos primeiros jogos fiquei assustado, impressionado. No primeiro deles, não consegui subir porque todos perguntavam do julgamento, querendo tirar foto.


Fonte : Globo Esporte

Postar um comentário

0 Comentários