Do Flu ao Remo, FH passa carreira a limpo e lembra briga com Romário

Aos 32 anos, atual goleiro denuncia más condições da Série D após conquistar acesso pelo Leão paraense, revela carinho pelo Ceará e planeja carreira política.

Fernando Henrique e a esposa, Cecília (Foto: GloboEsporte.com)
Fernando Henrique começou a carreira em um gigante do Rio de Janeiro, o Fluminense, se manteve por lá durante quase uma década, e, como menino deslumbrado com o mundo traiçoeiro da bola, viveu nas Laranjeiras glórias e problemas – antes de rodar por equipes de menor expressão no Brasil. Um deles foi há exatos 12 anos, com ninguém menos que o tetracampeão Romário, atual senador da República, à época seu companheiro de clube no Tricolor. 

Era domingo, 12 de outubro de 2003. Fernando Henrique tinha 19 anos e dava os primeiros passos no profissional com outras promessas da base, como Diego Souza e Carlos Alberto. A equipe não fazia um bom Brasileiro, mas havia vencido o Vitória e encerrado a sequência de cinco partidas sem vencer. O desafio então era conquistar mais três pontos diante do Goiás, no Serra Dourada, mas a partida acabou em um revés histórico por 6 a 1. De cabeça quente, o goleiro de 1,90m e o Baixinho quase “foram às vias de fato” no vestiário. 

Fernando Henrique declara carinho pelo Ceará Sporting 
e escolheu Fortaleza para viver (Foto: Ag. Estado)
– Naquela época eles tinham um timaço, com Araújo, Dimba, Grafite, Josué. Aí começamos a perder logo no começo do jogo. Acabou o primeiro tempo, e o time estava mal. O Romário entrou no vestiário e gritou com todo mundo. Eu o peitei, e quase saímos no braço. Eu era um menino de quase 20 anos. Quando acabou o jogo estava o maior climão no vestiário. Ele ainda assim veio me cumprimentar, dizendo que futebol era coisa para homem, e, a partir daquele momento, eu tinha o respeito dele – relembra o goleiro. 

Era apenas a primeira temporada como titular do Tricolor. E ele era o mais novo dos goleiros do elenco, que ainda tinha Kléber e Murilo. A ascensão foi rápida, vieram títulos, marcas importantes e polêmicas. Prestes a completar 32 anos, Fernando Henrique vive agorarealidade bastante distinta no Remo, que acabou de conquistar o acesso à Série C. O tempo foi duro, mas o fez amadurecer e se tornar, hoje, uma referência nos clubes por onde passa. 

– Cheguei à base do Fluminense com 16 para 17 anos. Fui dando passos largos em pouco tempo e quando vi já estava no profissional. Acho que a minha história foi muito bonita lá. Foram 10 anos. São coisas que aconteceram ali que me fizeram crescer bastante. Teve um momento em que eu me perdi muito. Antes eu saía demais, no meu auge quebrava algumas regras de comportamento, brigava, subiu para minha cabeça. Teve um momento em 2011 que eu precisava retomar minha carreira ou eu pararia. 

Depois de altos e baixos e algumas lesões, Fernando Henrique decidiu que precisava de novos ares. A concorrência pela camisa 1 do Fluminense começava a ficar mais pesada, assim como a pressão sobre o goleiro, que decidiu então aceitar o convite do Ceará.

– Vários altos e baixos. Se eu não me engano joguei 270 jogos pelo Fluminense, mas era para ter jogado muito mais. Em dez anos eu poderia ter uns 300 a 400 jogos. Alguns anos eu me entreguei mesmo, não queria, cabeça de moleque, todo mundo estava errado e eu certo. Aí chegou o Diego Cavalieri em 2011 e eu pensei: "Agora ficou pesado para mim." Poderia ter ficado lá, a concorrência ia ser grande. Só que também já estava meio que de saco cheio, a cobrança era maior, e por mim mesmo, pelas coisas que eu fazia. Na época que decidi sair tinha mais um ano de contratado, mas fui para o Ceará tentar a vida.

Em Fortaleza, FH encontrou a tranquilidade que teve em poucos momentos no Rio de Janeiro. Logo se tornou ídolo do Vovô, conheceu a namorada que se tornou esposa, montou uma empresa no setor gráfico e fixou residência por lá. Os planos não param por ai. O goleiro pretende ingressar na carreira política quando se aposentar. 

– Falei para os caras (dirigentes) do Ceará que queria ir. Falei que dinheiro não era problema. Acertamos um salário e eu fui. Lá fui muito bem aceito, fui campeão. Passei três anos. Não conseguimos subir em 2013, bateu na trave. Agora meu plano é jogar novamente em uma divisão de elite, e quando me aposentar penso na carreira política. Eu já apresentei uns projetos em Fortaleza. Quero poder ajudar crianças e trabalhar pelo bem-estar social. Acho que é um desafio, e sei do meu potencial nisso.

Goleiro permaneceu nas Laranjeiras por cerca de dez anos consecutivos (Foto: Globo)
DA ELITE À SÉRIE D

Da Série A para a B e um pulo até aterrissar na D do Brasileirão. Na última divisão do campeonato nacional, Fernando Henrique tem vivenciado experiências únicas dos gramados que ele julga impraticáveis para o futebol até mesmo a estádios sem arquibancadas ou cabines de imprensa. Para quem teve dias de glória no Maracanã, vestiu a camisa da seleção brasileira – foi convocado para o Jogo da Paz contra o Haiti em 2004 – e chegou a ser odiado pela torcida do Flamengo por conta de grandes atuações, o tempo mostrou para o goleiro uma nova vertente do mundo da bola. 

– Tive grandes atuações contra o Flamengo, a torcida tem raiva de mim. Falam que eu pego muito contra o Flamengo. Eu vacilava, às vezes, porque era desatento em alguns jogos que eram considerados medianos. Nos clássicos e nas finais, se eu falhei foram poucas vezes, das muitas que eu joguei. A minha atenção era redobrada. Agora estou aqui. Não joguei a C e pulei direto para a D, o que me assustou muito. O Fernando Henrique não jogará mais a Série D depois dessa experiência. Não desmerecendo, mas não tem condições de se praticar o bom futebol em alguns campos na Série D. Os estádios não têm condições. Fomos jogar em um local que até a minha pelada tem campo melhor. É surreal aquilo. E o Remo não merecia isso – lamentou. 

A temporada no Pará tem sido apenas de aprendizado para Fernando Henrique, já que o goleiro se diz financeiramente independente desde os tempos do Fluminense, e, apesar de negar extravagâncias com os três dígitos que caíam na conta todos os meses durante alguns anos, a vida com carros de luxo e viagens sempre fez parte de sua rotina. 

– Eu fiquei no Fluminense muito tempo e passei uns cinco anos ganhando bem. Hoje eu poderia parar de jogar, mas não me vejo fazendo isso. Estou passando por um momento de reflexão aqui e eu falo para minha esposa que é para eu aprender a valorizar as minhas coisas. Eu poderia viver de aluguéis, tenho três (imóveis) no Rio e quatro em Bauru, e mais um em Fortaleza, onde abrimos uma gráfica também. Sempre andei com carrões, mas também comprei minhas coisas. Tive um BMW Z4, Mustang, Camaro, uns 30 carros, mas nunca paguei mais de R$ 200 mil. Hoje tenho um Cadenza, um carro normal. Hoje não tem coisa melhor que estar em casa com a família. 

OUTROS PONTOS DA ENTREVISTA 

Família 

Eu sempre quis dar uma vida boa para a minha família. No primeiro momento da minha vida de jogador eu comprei um carro. Falei: "Isso não é justo." Vendi o carro e comprei um apartamento para a minha mãe. Depois eu falei que queria ter uma mansão em Bauru. Comprei o que eu queria. Comprei minhas casas em Bauru. Aí falei que agora queria ter o meu carro. Nunca tive tantos sonhos. Nunca fui de querer ter uma Ferrari. Queria um carro bom, uma vida digna e confortável. 

Farras 

Nas minhas farras eu não gastei muito. Acho que R$ 3 mil, por aí, eu gastava. Eu era meio de boa, saía normal, ficava tranquilo. Isso nunca me encheu muito os olhos. Cansei. Farra é bom, mas hoje não trocaria a vida com a minha família por farra nenhuma. Agora, quando tinha, era tipo assim: "Vamos para onde após o jogo?" A gente acabava o jogo e viajava para outro estado. Eu sempre andei com amigos fora do futebol. Não andava muito com jogadores. Eu vivi tudo, não me arrependo de nada. O que ferra o jogador é a galera que leva atrás dele, 10, 15 pessoas. E comigo nunca teve muito disso. Claro que às vezes eu pagava, mas geralmente a gente rachava. 

Amor por Fluminense e Ceará 

Tenho amor pelos dois: Ceará e Fluminense. Pelo Ceará e pela cidade de Fortaleza. Eu moro hoje e me casei lá. Tenho minha vida toda lá. Então tenho um grande carinho e respeito pelo povo de lá. O Ceará também é um grande time, bem estruturado, com grandes dirigentes. Tá enfrentando uma fase ruim agora, mas vai passar. Tem pessoas do bem no comando. Eu me identifico muito com o clube, eu visto a camisa mesmo. 

Companheiros da bola 

Joguei com uns caras sinistros: Dodô, Washington, Cicero, que é completo como jogador para mim. Na Seleção, com os craques Ronaldo Fenômeno, Roberto Carlos, Ronaldinho Gaúcho, Edmilson e Belletti. Mas o que me impressionou no futebol foram pessoas de verdade, tipo o Fred. Ele é um cara dos mais humildes que eu conheço. O Thiago Silva também é um exemplo de ser humano. Romário tem o jeito dele, mas era um monstro jogando. Ele é uma boa pessoa. Sheik é um bom pai, cara engraçado.

*A reportagem tentou contato com o senador Romário, mas não obteve retorno.

Fonte: Ge
Texto: Jorge Sauma e Pedro Cruz*